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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Magnificat



               Por que será que Jesus veio à Terra? Qual era o propósito da encarnação? Certamente, a encarnação de Cristo foi um evento complexo, tendo muitos efeitos que se desencadearam  por toda a história. Entretanto, com muita freqüência nos apegamos aos aspectos individuais do resultado da vida, ministério, morte substitutiva e ressurreição de Cristo. Neste caso, a encarnação se torna freqüentemente nada mais do que um meio para um fim; Jesus tinha de nascer a fim de que pudesse morrer na cruz. O Natal é um meio para a Páscoa.
               De maneira nenhuma pretendo diminuir a cruz. Ela é de fato o pivô sobre o qual toda a história gira.  Sem ela, não temos nenhuma esperança. Em vez disso, o que quero é elevar a vida e o ministério de Cristo - a encarnação - ao seu devido lugar em nosso entendimento de vida cristã. Jesus não ficou andando a esmo por cerca de 30 anos, esperando morrer e fazendo alguns milagres durante essa trajetória, simplesmente para provar quem Ele era. A encarnação é muito mais significativa do que isso.
               Para se começar a entender o significado da encarnação, vai ser útil ver o que Maria, a mãe de Jesus,  compreendeu o que significava. Isso se torna bastante claro em uma passagem da Bíblia chamada de O Magnificat  (Lucas 1:46-56).  Contudo, a chave para o entendimento deste texto vem um pouco antes no capítulo em questão. Em Lucas 1:26-38,  o anjo Gabriel visita Maria e lhe diz que ela irá dar a luz  a um filho, mas não qualquer um. Ela dará a luz ao Filho do Altíssimo; o tão esperado herdeiro do trono de Davi. Como prometido, o Seu reino (reinado) será eterno (Lucas 1:31-33).
               Para entender a magnitude dessa promessa, é essencial entender o conceito do Velho Testamento sobre o novo êxodo. No primeiro êxodo, Deus resgatou o povo hebreu da escravidão e da opressão dos egípcios. Através desse processo, a nação de Israel foi gerada para ser reis e sacerdotes que mediariam o reinado de Deus sobre a Terra (Êxodo 19:4-6).  Era uma espécie de Adão corporativo através de quem Deus trabalharia para trazer toda a criação para baixo de Seu reinado soberano, como Ele pretendia originalmente  (Gn 1:26-28).
               Infelizmente, Israel continuou em pecado e, assim como Adão, foi exilado de seu Éden. Israel foi levado cativo à Babilônia; porém, os profetas falaram de um novo êxodo que seria muito mais abrangente que o primeiro (Is 35; 43:16-21; 51:9-11; 65:17-25).  O povo de Deus seria resgatado do cativeiro e regressaria à terra prometida onde a presença de Deus habitaria em seu meio no templo.  Além do mais, com esse êxodo, a maldição sobre a criação seria retirada, a morte e a doença seriam derrotadas e a escravidão em todas as suas formas seria erradicada; incluindo a sujeição a Satanás e ao pecado, bem como a opressão física e política.
               Quando o povo de Deus foi liberto do cativeiro e retornou para sua terra, o que  encontrou não era nada parecido com o que os profetas haviam prometido. Os hebreus encontraram Jerusalém em ruínas e enfrentaram grande oposição em seus esforços  para reconstruir o templo e a cidade.   Também enfrentaram a fome e, como conseqüência, sofreram muito. Além do mais,  apesar de estarem em sua terra, nunca a possuíram como era antes. Como resultado, viram seu retorno como apenas o cumprimento parcial do novo êxodo que os profetas haviam prometido. Seu retorno do exilio não foi completo e começaram a esperar pela plenitude do resgate do novo êxodo que viria quando o filho de Davi se sentasse uma vez mais no trono de Jerusalém.
               Por centenas de anos, Israel esperou por seu prometido resgate. Sofreu sob opressão política e demoníaca. Esperou que o justo reinado de Deus se manifestasse em sua vida. Isso torna-se especialmente real para os pobres e necessitados que sofriam  mais que todos. Era esse o contexto em que Gabriel visita Maria.
               Quando ela ouviu que daria a luz ao Filho do Altíssimo, que acabaria por trazer a plenitude do novo êxodo que havia sido profetizado, Maria não pôde se conter de alegria.  É exatamente isso o que vemos em Lucas 1:46-56.  Maria sabia que Deus estava intervindo na história e que a nova criação que Israel tanto aguardava estava finalmente se concretizando! O Natal teria a ver com o reino de Deus invadindo a terra e todas as coisas sendo feitas novas (Is 43:18-19).
               Assim, Maria começa seu cântico de louvor refletindo sobre quem Deus é, seu salvador (vs. 46-47).  À luz do que foi discutido acima, Deus como salvador deve ser entendido de uma maneira abrangente. A salvação que Maria antevê é a plenitude do novo êxodo; a restauração da criação, a derrota de Satanás e a derrota de seu reino, o resgate do pecado e da morte e a restauração da comunhão com Deus. É por isso que ela magnifica o Senhor e se alegra com todo o seu ser.
               Uma das coisas importantes para se entender nessa passagem é que o reino de Deus vira o reino de Satanás (o mundo) de cabeça para baixo. Eles são os opostos polares um do outro. Em referência ao reino, Jesus repetidamente deixa claro que,  em Seu reino, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos (Mt 19:16-30; 20:1-16, 20-28).   Isso é demonstrado pelo próprio Rei na medida que ele humildemente serve a humanidade  (2 Co 8:9, Fl 2:5-8).  No reino de Satanás, os poderosos e fortes são exaltados, enquanto os fracos são oprimidos. Sob o reinado de Jesus, os mansos e humildes reinam com Ele, enquanto os poderosos são derrubados. Esta realidade é vista por todo o cântico de louvor de Maria.
               Isso é visto primeiramente no versículo 48 quando Maria faz referência ao seu "estado humilde". Este termo não apenas se refere  à humildade de seu espírito, mas também à sua posição social. Ela não vinha de uma família importante, com poder e prestígio. Pelo contrário, ela era uma pobre camponesa. Poderia se imaginar que o Filho do Altíssimo nascesse de uma grande família em um belo palácio e não de um casal pobre em um estábulo.
               Maria nunca procurou roubar a glória de Deus. Ela sabia que a posição favorecida que ela ocupará deve-se apenas ao fato do poderoso Deus ter escolhido abençoá-la (v. 49).  Ela será chamada bendita para sempre por causa da bênção especial que o Senhor lhe deu.  É triste que a bênção de Deus tenha sido deturpada e levado a dois pontos de vista divergentes e errôneos sobre Maria. A Igreja Católica Romana entendeu errado o papel de Maria e a venera a uma posição que ela nunca ocupou. A igreja protestante, em um outro extremo, a deixa no ostracismo, tanto que ela só é eventualmente mencionada em um sermão de Natal.  
               Na segunda parte de seu cântico, Maria muda o foco do que Deus fez a ela para o que Deus fez e fará para Israel. Ela cita e faz alusão às numerosas passagens do Antigo Testamento sobre a obra de Deus para com Israel. Contudo, o contexto de seu louvor é a entrada do reino de Deus na história, o cumprimento do novo êxodo. Embora ela fale no tempo passado, citando as Escrituras, também está profetizando na linguagem do novo êxodo a chegada do reino de Deus. Assim, vemos no restante  do cântico não apenas o que Deus fez, mas o que Ele fará.
               Aqui vemos como o reino de Deus vira o reino de Satanás de ponta-cabeça. Deus mostrará misericórdia aos mansos que O temem (v. 50).  Ele derrubará os orgulhosos e humilhará os poderosos, enquanto exalta os humildes (vs. 51,52).  Os famintos ficarão cheios de bens e os ricos serão despedidos sem nada (v. 53) (Lucas 16:19-31; 18:18-30).  É dessa maneira que o reino de Deus se apresenta.  De fato, trata-se de boas novas para os pobres (Lucas 4:18; 14:12-24; 19:1-10).
                Com certeza, há aspectos espirituais nesses versículos. Devemos ser humildes de espírito e famintos espiritualmente por Deus, mas não ousar a tirar do louvor de Maria  todo o seu propósito. Um entendimento adequado do novo êxodo e do reino de Deus não permitirá isso. Queremos espiritualizar o que ela está dizendo e tirar disso todas as implicações físicas/temporais porque elas nos deixam desconfortáveis. Afinal de contas, somos os ricos e poderosos que podem ser humilhados e despedidos sem nada. O reino de Deus vira o mudo de cabeça para baixo e, do mesmo modo, também vira o nosso mundo de cabeça para baixo.   Não podemos marginalizar as palavras de Maria; devemos trabalhar duro para aplicá-las em nossas vidas hoje.
               O reino que vem através do nascimento de Jesus é o resultado da promessa que Deus fez a Abraão e à sua descendência (vs. 54,55). Através do reinado soberano de Jesus, o Israel de Deus será liberto e todas as nações da Terra serão abençoadas. Esta é a esperança da encarnação! É esse o significado do Natal para Maria. O reino está aqui como uma semente de mostarda, mas como fermento se espalhará até que a promessa do novo êxodo há muito tempo esperada seja cumprida por completo.

Um comentário:


  1. Resumo dos comentários acima:
    Diz Sto. Ambrósio que enquanto Nossa Mãe gerou verdadeiramente toda expressão humana de Jesus Cristo, nós, todos os fiéis a Ele o geramos em nossos corações, somente em espírito e assim devemos nos expressar verdadeiramente em todos os atos de nossa vida. É um belo ensinamento. Este hino é um canto que expressa Alegria pessoal, espontânea, da alma que tem a plenitude do Espírito Santo possivel a um ser humano e além disso a presença do próprio Salvador no seu ventre. É por causa disto o maior Louvor a Deus, reconhecimento de Sua grandeza, e depois a maior Exaltação, por causa da realização de suas obras, no Novo Testamento ou em ambos, afinal é a Mãe do Senhor que O exalta, no momento, por causa da Encarnação e depois já por todas as gerações. É uma confissão também que o Senhor ama e atende os humildes (p.ex. OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS...), e não faz caso dos orgulhosos que O contestam. ( Comentário de Patrick-hubbard "Assim, Maria começa seu cântico de louvor refletindo sobre quem Deus é, seu salvador (vs. 46-47). À luz do que foi discutido acima, Deus como salvador deve ser entendido de uma maneira abrangente. A salvação que Maria antevê é a plenitude do novo êxodo; a restauração da criação, a derrota de Satanás e a derrota de seu reino, o resgate do pecado e da morte e a restauração da comunhão com Deus. É por isso que ela engrandece o Senhor e se alegra com todo o seu ser... também está profetizando na linguagem do novo êxodo a chegada do reino de Deus. Assim, vemos no restante do cântico não apenas o que Deus fez, mas o que Ele fará.."
    E termino meu comentário dizendo que Nossa Mãe está mostrando todo o Poder que será realizado pelo Seu filho que afinal acabou demonstrando que foi ainda mais humilde então, do que ela própria, porque foi escarnecido cruelmente a ponto de sofrer na carne o máximo de sofrimento que um ser humano pode aturar, a ponto de se esvair todo Sangue, e mesmo assim perdoou a todos e ansiou, NO ESTERTOR DE SEU SOFRIMENTO, pela realização de Seu objetivo dizendo:TENHO SEDE.

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