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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Deus é Luz - 1 João 1:5-2:2



               Nos quatro primeiros versículos desta carta, João aborda a heresia que estava atacando seus filhinhos na fé. Os falsos mestres estavam negando a humanidade de Cristo porque criam que o mundo físico era mau. Eles não conseguiam aceitar que um Deus santo e bom se rebaixasse para se tornar um homem e vir em carne. Esta crença teve um impacto terrível na prática da religião por parte deles.

               Um dos resultados de seu ponto de vista foi a complacência para com o pecado. Eles criam que sua alma tendo sido redimida uma vez, não mais importava o que eles faziam com o seu corpo físico já que era simplesmente uma casca para sua alma redimida. Como o físico era mau, não poderia se esperar que ele cometesse atos de justiça; desse modo, poderiam negar sua própria pecaminosidade. Essa é a questão que João aborda em I João :5-2:2. 

               No v.3, João declara que o propósito da mensagem dos apóstolos era a restauração da comunhão com Deus e com o próximo. No v.5, ele dá o conteúdo da mensagem deles. A mensagem que eles haviam recebido do Cristo encarnado era de que Deus era luz e que não havia treveas nEle. Eles receberam esta mensagem não apenas proveniente do que Cristo disse, mas do que ele fez (v.1-3). Era uma mensagem que eles não apenas haviam ouvido, mas também visto (João 14:8-11).   

               Há duas idéias que podem ser tiradas a partir do conceito de Deus como luz. A primeira é a auto-revelação de Deus. Sem a auto-revelação de Deus para o homem, é mais do que certo que permaneceríamos nas trevas. As trevas não podem produzir luz; ela deve vir de uma fonte externa. Do mesmo modo, o homem que é cego espiritualmente e morto no pecado depende da graça de Deus em revelar a Si mesmo.

               Nesta passagem, pode se concluir de maneira correta que a luz se refere ao próprio caráter justo de Deus. Deus é luz (justo) e nele não há trevas (injustiça). O caráter justo de Deus havia sido revelado aos apóstolos, já que eles o observavam sendo vivido na vida de Jesus Cristo. A palavra da vida, a vida eterna que estava com o Pai, foi manifestada a eles (v.2). Eles sabiam que Deus era luz não por causa de algum conhecimento especial, como os falsos mestres alegavam, mas porque o filho encarnado de Deus havia revelado a eles, tanto em palavra como em ação, no que eles haviam visto e também ouvido. 

               No v.6, vemos a primeira das três afirmações do tipo "se dissermos", em que João aborda diretamente a heresia dos falsos mestres. Aparentemente, eles estavam insistindo que tinham comunhão com Deus; contudo, continuavam a andar nas trevas. Eles faziam uma profissão verbal, mas continuavam a andar (viver) nas trevas, ou na injustiça. João simplesmente afirma que se continuarmos a andar em (praticar) pecado sem qualquer arrependimento, nossa profissão verbal é uma mentira e não praticamos a verdade. Ou seja, não praticamos a justiça. Quantos, na igreja de hoje, fizeram uma profissão de fé mas ainda andam nas trevas? 

               Não basta fazer uma profissão verbal ou caminhar no corredor de uma igreja; a verdadeira comunhão com Deus resulta em comportamento justo. Isso quer dizer que, como Deus é luz (justo), se andarmos na luz (praticarmos a justiça), podemos ter certeza que temos comunhão uns com os outros (v.7a).  Talvez esperemos que o apóstolo diga que podemos ter certeza que temos comunhão com Deus, mas ele já coloca no v.3 que o evangelho restaura a comunhão com Deus  e como resultado, de uns para com os outros. Assim, no começo do v.7, nossa prática da justiça de uns para com os outros já é testemunho do fato de que temos comunhão com o Senhor.

               Isso vem a ser possível através do sangue de Jesus que nos purifica de todo o nosso pecado (v.7b). De maneira alguma João está proclamando uma salvação baseada em obras. Ele descreve, coerentemente com o v.3, a salvação em relação à nossa comunhão restaurada com Deus. Esta comunhão restaurada e a resultante prática da justiça são executadas pelo sangue de Jesus que expia por todo o nosso pecado. 

               Na segunda afirmação do tipo "se dissermos", João aborda a alegação dos falsos mestres de que eles não tinham pecado (v. 8).  É como se eles declarassem não ter uma natureza pecaminosa. O ponto de vista deles era de que Deus havia erradicado a natureza pecaminosa neles ou pelo na alma deles. Quantos hoje alegam uma forma de espiritualidade e ao mesmo tempo negam a presença do pecado em suas vidas? Se assim fazemos, João diz que enganamos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se negarmos nossa própria pecaminosidade, então qualquer comportamento se torna aceitável. Não há qualquer padrão moral. É o caso dos falsos mestres e também de muitos em nossa sociedade.

               No entanto, se reconhecermos e confessarmos nossos pecados, Deus, que é fiel e justo, nos perdoará (v.9). No v.8, João fala do pecado (a natureza pecaminosa) e no v.9 ele diz que devemos confessar nossos pecados (atitudes pecaminosas). Mais uma vez, uma negação da natureza pecaminosa resulta em não se perceber a necessidade de uma confissão; mas, inversamente, um reconhecimento da nossa natureza pecaminosa levará à confissão de nossas atitudes pecaminosas. Quando reconhecemos e confessamos nossos pecados, podemos ter a confiança de que Deus nos perdoará e nos purificará de toda injustiça.

               Isso deve-se a Ele ser fiel em suas promessas. O Senhor prometeu perdoar os pecados de seus filhos. Isso é visto de maneira clara na nova aliança (Jr 31:31-34) entre outros lugares. O Senhor deve perdoar os pecados para se manter fiel a suas promessas. Contudo, isso gera um problema já que João disse que Deus não é apenas fiel, mas justo. Como pode Deus manter sua justiça se não punir o pecado? Ele não pode! Então, Cristo foi a propiciação para nosso pecado; Ele satisfez a ira de Deus ao tomar nosso pecado e morrer em nosso favor. Desta maneira, Deus foi tanto justo como justificador (Rm 3:21-26).

               Na terceira afirmação do tipo "se dissermos", João lida com a alegação dos falsos mestres de que eles não pecavam (v.10). Não apenas negavam sua natureza pecaminosa, mas negavam ter cometido um único pecado. Quer eles estivessem se referindo a estarem sem pecado antes de sua confissão de fé, quer a não terem pecado desde então, em qualquer um dos casos, João diz que tal modo de pensar torna Deus um mentiroso. Em Sua palavra, o Senhor deixa claro que todos pecaram (Rom 3:23).  Mais adiante, Paulo descreve a guerra em sua carne na medida em que luta contra o pecado, ao dizer que o pecado habitava nele e o impulsionava a fazer o mal em vez do bem que ele desejava fazer (Rm 7:13-25). Negar esta realidade presente no crente é fazer Deus mentiroso e dar provas de que não estamos em comunhão com Ele.

               Tendo discutido profundamente o falso ensino sobre a ausência do pecado, João é rápido na correção em sentido contrário. A fim de que não seja interpretado como alguém que aceita o pecado, ele afirma de modo definitivo que está corrigindo os falsos mestres para que seus amados filhos na fé não venham a pecar (2:1). Ele não está minimizando o pecado, mas antes, ele os chama para andarem na luz; para que entendam a verdade e pratiquem a justiça. Se cairmos em pecado, no entanto, sabemos que Jesus Cristo é  nosso advogado junto ao Pai. 

               Jesus é justo porque ele viveu uma vida justa. Sendo assim, ele pode se achegar ao Pai em nosso favor. Ele é nosso advogado diante do Pai. Portanto, quando nós pecamos, não precisamos ficar com medo porque o Senhor Jesus intercede por nós.  Apenas Ele é qualificado para fazer isso porque Ele é a propiciação por nossos pecados (v.2). Conforme está escrito acima, em sua morte substitutiva na cruz, Ele satisfez a ira de Deus contra nosso pecado. Deus é justo e deve julgar o pecado; então, Jesus tomou esse julgamento em nosso favor. Ele era, de maneira sem igual, qualificado para fazer isso, pois somente Ele viveu uma vida justa, a mesma vida que manifestou e cujos apóstolos proclamaram. 

               Este ponto de vista quanto à propiciação não deve ser confundido com a visão pagã dos homens pecaminosos tentando apaziguar a ira de um Deus irritado e desinteressado. Isso é totalmente o contrário da verdade. Foi Deus quem iniciou esta propiciação. Ele enviou seu filho para morrer a fim de satisfazer a Sua ira contra o pecado e conceder nosso perdão (I João 4:10).  De acordo com  João, a abrangência da satisfação desta ira é global e suficiente para os pecados do mundo. 

               Está claro que a salvação deve ser vista em termos de comunhão restaurada com Deus, que resulta em uma comunhão apropriada de uns para com os outros. Isso é demonstrado ao se andar na luz (praticar a justiça), o que transcende a santidade pessoal e inclui como amamos uns aos outros.  Isso vem a se tornar possível através do sangue de Jesus, que satisfaz a ira de Deus e nos purifica do pecado, tornando possível a comunhão restaurada para todos os que crêem no arrependimento e na fé.

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