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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Evangelho da Comunhão - 1 João 1:1-4


               Na epístola de I João, o apóstolo está escrevendo aos seus filhos amados para tratar de uma heresia que havia surgido na igreja. Os estudiosos divergem sobre qual era exatamente a heresia, mas está claro que ela envolvia a negação da humanidade do Senhor Jesus. Uma versão desse ponto de vista herético via Jesus como um homem sobre quem o Cristo desceu por um tempo entre seu batismo e sua crucificação.  Nesta visão, o Cristo era um espírito que veio sobre um homem chamado Jesus, que era o filho de Maria e José. Em uma outra variante, os falsos mestres ensinavam que o Cristo não havia nascido realmente como homem, mas era um espírito sem um corpo físico, como um fantasma ou assombração.

               Independentemente de qual ponto de vista era defendido pelos falsos mestres, o impacto na igreja está claro a partir da carta de João. A desumanização de Cristo levou a dois comportamentos pecaminosos. Primeiro, as pessoas se tornaram complacentes com o pecado. Segundo, elas se tornaram insensíveis às necessidades dos outros. O que há na rejeição da humanidade de Cristo que levou a esses comportamentos?

               Ao rejeitarem a humanidade de Cristo, as pessoas desvalorizavam a humanidade em geral. Esses falsos mestres ensinavam que o físico era ruim e mau. Por outro lado, eles elevavam o espiritual como sendo a única coisa de algum valor. Para eles, a alma ou espírito era tudo o que importava. Assim, se seu espírito havia sido redimido, então não importava o que você fizesse com o seu corpo, porque, afinal de contas, a carne é má.

               A pecaminosidade deles não só incluía pecados de comissão, mas seu ponto de vista herético levava, do mesmo modo, a pecados de omissão. Como eles haviam desvalorizado o físico e elevado o espiritual, eles podiam agora olhar para seus irmãos que lutavam com suas necessidades físicas e fechar seus corações para eles. Afinal, o espírito ou alma é o que importava; o físico era passageiro e mau.

               Ainda que não cheguemos ao nível da heresia e nem neguemos a humanidade de Cristo, nós freqüentemente elevamos o espiritual sobre o físico. Será que justificamos nossos pecados porque a carne é má e fraca? Será que olhamos para as necessidades de nossos irmãos e irmãs em Cristo e fazemos vistas grossas porque salvar almas é mais importante do que salvar vidas? João diz que nenhuma dessas práticas é compatível com o Cristianismo! Em Jesus Cristo, tanto a divindade como a humanidade estão igual e completamente presentes e, assim, o espiritual e o físico estão eternamente unificados.

               À luz das heresias presentes na igreja, não é de se admirar que João dedique o prólogo de sua carta a estabelecer de maneira firme a realidade da humanidade de Cristo. Nos primeiros dois versículos, ele deixa claro que Jesus é o Cristo e que ele havia se tornado homem. A referência a “o que era desde o princípio..." no v.1 certamente inclui o entendimento da pré-existência de Cristo conforme é visto em João 1. Aqui, porém, ele lida especificamente com a encarnação e o início da vida terrena de Cristo.

               João, o apóstolo, oferece seu registro de testemunha ocular da humanidade de Cristo. Diferente dos falsos mestres que defendiam ter um conhecimento especial, João havia ouvido, visto e tocado no Senhor. João e os outros apóstolos haviam ouvido Jesus pregar o Sermão da Montanha.  Eles haviam visto Jesus tocar e curar os cegos e os doentes. Eles haviam tocado nEle e até mesmo colocado seus dedos nas feridas dEle após a ressurreição. É significativo que os apóstolos não apenas proclamaram o que haviam ouvido Jesus ensinar, mas também o que eles O viram fazer. O que Cristo fez é tão importante quanto o que Ele disse.

               Em seu Evangelho, João se referiu a Cristo como o Verbo pré-existente que estava com o Pai e declarou que nEle havia vida (João 1:1-4).  Como criador e sustentador de todas as coisas, Cristo era a vida eterna. Por meio da encarnação, ele habitou no meio da raça humana e manifestou esta vida eterna. João e os outros apóstolos haviam sido testemunhas oculares da vida manifesta de Cristo e testificaram e proclamaram isso à igreja (v. 2). 

               Nesses primeiros dois versículos, João, de maneira clara e concisa, refuta as distorções dos falsos mestres sobre quem Jesus era. Não havia dúvidas de que Jesus era tanto Deus como homem unificados em uma só pessoa. Sua humanidade não estava subordinada à sua divindade e nem a depreciava. 

               Para ter certeza, a encarnação de Cristo e a manifestação da vida eterna tinha um propósito e João afirma isso de maneira clara no v.3. Era a restauração da comunhão entre os homens e Deus. Esta é uma maneira muito interessante de descrever o evangelho. Desconfio que muitos de nós diriam que o evangelho é que Jesus morreu pelo meu pecado para que eu pudesse escapar do inferno.  Ou talvez, nós o declararíamos de maneira mais positiva, que Jesus morreu pelo meu pecado para que eu fosse para o céu. Contudo, não é essa a maneira com que João descreve o evangelho.

               Para João, as boas novas não eram sobre eu estar fora do inferno ou estar no céu. Para João, as boas novas são que eu estou com Deus!  Fomos criados para a comunhão eterna com o Senhor e também de uns para com os outros. O pecado rompeu nossa comunhão com Deus e corrompeu nossa comunhão com o homem, mas em Cristo, essa comunhão é restaurada. Nós podemos conhecer a Deus e amá-lo de todo o coração, alma, mente e força e podemos amar nosso próximo como a nós mesmos. Podemos habitar na presença de Deus. Podemos encontrar nosso propósito em nosso papel como portadores da imagem de Deus, glorificando a Ele participando de Seu reino. Este é o evangelho! 

               O resultado final da comunhão restaurada é a alegria. João está proclamando Cristo a fim de que seus ouvintes possam entrar em comunhão com a igreja e com o Pai e o Filho. Ele sabe que o resultado final desta comunhão é uma alegria completa. Certamente, ele está olhando adiante para a consumação da história quando tudo for feito novo; entretanto, mesmo agora quando participamos da comunhão do corpo com o Pai e o Filho, experimentamos uma grande alegria!

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