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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Cuidado para com o Corpo


          O cuidado para com o corpo físico é algo natural. Se estamos machucados, não precisamos ser alertados de que devemos cuidar de nosso corpo para que ele seja curado e restaurado. Não precisamos ser convencidos de que os outros membros de nosso corpo devem carregar o fardo do membro machucado. Por exemplo, se o tornozelo direito está machucado, a perna esquerda irá sem qualquer hesitação carregar o fardo do peso do corpo todo. É desse modo que o corpo físico cuida naturalmente de si mesmo.

          Do mesmo modo, a Igreja tem a responsabilidade de cuidar de seu corpo, que é o corpo de Cristo.  Ao mesmo tempo em que vemos essa verdade por toda a Escritura, ela está clara e concisamente exposta em Gálatas 6:1-5.  No final do capítulo cinco, Paulo descreve como é andar no Espírito ao mostrar o amor, a alegria, a paz, a paciência, a amabilidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão e o domínio próprio (Gl 5:22-25).  Então, ele admoesta os crentes a permanecerem humildes e não provocar ou invejar uns aos outros (Gl 5:26). Pelo contrário, conforme ele explica em nossa passagem, devemos humildemente procurar restaurar uns aos outros e carregar os fardos uns dos outros.

          É de responsabilidade da pessoa espiritual, aquela que está andando no Espírito e assim mostrando o fruto do Espírito, restaurar o irmão que caiu no pecado (v. 1).  Isso não quer dizer que temos de ser perfeitos antes para que possamos restaurar o irmão, mas apenas que devemos nós mesmos estar buscando o Senhor. Também não significa que o apóstolo quer dizer que é tarefa da pessoa espiritual julgar ou condenar o irmão que caiu, por isso da observação "Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado". 

          A pessoa espiritual percebe que longe da graça de Deus, também ela está apta a cair em pecado a qualquer hora. A expressão "cair em pecado" é de fato bem precisa porque Paulo usa uma palavra que retrata exatamente isso, uma pessoa pecando por causa de fraqueza, desatenção ou uma falsa visão de sua própria força. O quadro não é o de um pecador endurecido agindo deliberadamente em pecado; até mesmo o maior dos espirituais deve perceber que estamos todos propensos a escorregar e cair em pecado; assim, devemos, em espírito de mansidão restaurar nosso irmão ou irmã. 

          O conceito de restauração é bem significativo. Quando um membro do corpo físico está ferido, procuramos sua cura e restauração para que ele possa uma vez mais cumprir com seu papel no corpo. Sua completa restauração permitirá que o corpo inteiro funcione como deveria. Isso também é verdade no corpo de Cristo.  Nosso objetivo não é a punição ou a condenação; essa não é nossa preocupação.  Nosso negócio é a restauração, em espírito de mansidão, movido pela humildade.

          Quando procurarmos restaurar um irmão que caiu, devemos semelhantemente carregar seu fardo (v. 2). Certamente isso significa que devemos auxiliá-lo a superar seu pecado e viver uma vida vitoriosa. Entretanto, creio que há mais a ser visto aqui. A ideia de carregar os fardos uns dos outros é muito maior do que simplesmente ajudar uns aos outros a vencer o pecado. Ela envolve a vida por completo. A pessoa espiritual entende a realidade de sua participação no corpo de Cristo e assim procura carregar os fardos dos membros mais fracos a fim de que o corpo todo funcione adequadamente e cumpra sua missão no mundo.

          Paulo afirma que carregar os fardos uns dos outros cumprirá a lei de Cristo, que é resumida em João 13:34 “"Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros". Se o nosso carregar os fardos deve refletir o amor que Cristo tem por nós, então deve necessariamente abranger mais do que ajudar alguém a obter vitória sobre o pecado. Na verdade, em sua primeira epístola, João diz:  "Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos“  (I João 3:16).  Assim, se quisermos funcionar adequadamente dentro do corpo, devemos amar como Cristo amou, o que envolve a morte de si mesmo para carregar os fardos dos outros. É isso o que a pessoa espiritual faz.

          Um dos maiores obstáculos a esse tipo de amor e de cuidado dentro da igreja é o orgulho  (v. 3).  Somos todos propensos a sermos enganados por ele. Achamos que somos melhores do que os outros ou que eles estão sofrendo por causa de sua própria pecaminosidade e assim estão recebendo sua justa recompensa. Contudo, a pessoa espiritual não é enganada pelo orgulho. Ela percebe que ela não é nada se está longe da graça de Deus e, portanto, não menospreza seu próximo que caiu em pecado ou está lutando debaixo do peso de um fardo pesado. Ela reage com amor e ternura porque sabe que foi essa a resposta do Senhor.

          O orgulho é uma reação fácil quando nos comparamos com nosso próximo (vs.4).  Podemos sempre achar aspectos em quais somos melhores, mas esse não é o caso quando nos testamos em comparação com Cristo. Compararmos a nós mesmos com Cristo promove a humildade e o entendimento de que qualquer coisa boa em nós é obra da graça e resultado da misericórdia. Assim, antes de nos orgulharmos em nossa carne quando comparados ao nosso próximo, podemos nos orgulhar no que Cristo fez em nós. Paulo não está defendendo um orgulho arrogante por si mesmo porque quando comparados com  Cristo, o orgulho deve fugir. Em vez disso, o que ele quer dizer é que o homem espiritual pode se orgulhar em tudo o que Cristo fez nele.

          Pode parecer que Paulo muda o discurso no v. 5 e se contradiz. Porém, não é esse o caso, de maneira alguma. O que diz é que cada crente será responsável por como carrega o fardo. Esse é o fardo de restaurar irmãs e irmãos caídos e o fardo de carregar as cargas dos outros.  Então, cada cristão será julgado por Deus pelo quão fiel é nessas áreas. Se somos orgulhosos e nos esquivamos das responsabilidades por causa do amor próprio ou do senso deturpado de superioridade, seremos julgados por nossa falta de fidelidade.

          Está claro que, para Paulo, a igreja deve cuidar de seus membros. Para nós, isso deve ser visto em um nível local e global. Somos membros individuais de um corpo local que é, por si, membro de um corpo global.  Portanto, devemos procurar restaurar os irmãos e irmãs que caíram e amorosamente carregar os fardos uns dos outros, tanto local como globalmente. Isso requer humildade, muito trabalho, diligência e, acima de tudo, graça.

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