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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Fé e Obras


               A carta de Tiago tem sido, desde o início, motivo de controvérsias. Foi discutido se ela deveria ou não ser incluída no cânon das Escrituras. Muito da controvérsia girou em torno da segunda metade do capítulo dois. Aparentemente parece haver uma contradição entre o ponto de vista de Tiago (Tiago 2:24) e o entendimento de Paulo quanto à salvação (Romanos 4:4-5).  Esta aparente contradição levou Martim Lutero a se referir a Tiago como “uma epístola de palha” [1].
               Tanto Tiago quanto Paulo apontam para a crença de Abraão na promessa do Senhor que resultou no fato de ele ser contado como justo (Gênesis 15:6). Contudo, Paulo concluiu em Romanos 4:1-5 que a justificação de Abraão era uma dádiva obtida apenas pela fé. Paulo deixa claro que nenhuma obra está envolvida. Tiago, entretanto, afirma claramente que a fé de Abraão “cooperou com as suas obras (Tiago 2:22 NVI) e uma pessoa é justificada “pelas obras, e não somente pela fé” (Tiago 2:24 NVI). Ambas as afirmações não podem estar corretas, ou será que podem?
               Para entender melhor o que os escritores bíblicos estão dizendo, é importante entender o propósito de seus escritos. Cada um deles tinha em mente um grupo de falsos mestres. Paulo estava falando da questão do legalismo em que as pessoas procuravam acrescentar obras meritórias à fé. Isto está evidente de maneira mais clara na epístola aos Gálatas. Tiago, por outro lado, estava se dirigindo aos aristocratas judeus que praticavam uma espécie de religiosidade da boca para fora que entendia a fé como uma mera adesão intelectual ao vazio ortodoxo de qualquer obediência prática, ou ortopraxia.[2] Essas duas heresias estão bem vivas dentro do evangelicalismo moderno, embora eu pense que esta última seja a mais predominante. 
               Com isso em mente, vamos rever Tiago 2:14-26.  Ao refletir sobre sua afirmação referente ao cumprimento da lei real feita no versículo 8, Tiago coloca uma situação hipotética nos versículos 14-17 para dar seu posicionamento. Observe no versículo 14 que ele está se referindo a alguém que “diz” ter fé, mas não tem obras que andam juntas com a fé professada. Isto é significativo para o argumento de Tiago porque sua premissa é que uma profissão assim sem ações não é uma fé salvadora, daí a pergunta retórica, “porventura a fé pode salvá-lo?” (NVI).
               A partir de seu argumento anterior em relação à opressão dos pobres, Tiago coloca seu caso. Ele descreve para o público - e presumidamente para aquele que, no versículo 14, diz que tem fé - um cristão pobre que é irmão em Cristo.  Este cristão necessitado está completamente destituído até mesmo das necessidades básicas. Para Tiago, seria um absurdo, até mesmo impossível, para alguém com uma fé verdadeira se despedir de seu pobre irmão ou irmã sem ajudá-lo(a). João repete este sentimento em 1 João 3:16-18. Para Tiago e João, a fé que permanece em si mesma e não exibe compaixão para com o pobre irmão ou irmã, é uma fé morta. Neste ponto, Paulo concordaria. Em uma das mais claras afirmações sobre a salvação pela fé (Ef 2:8-9) ele, do mesmo modo, liga a fé real às obras (Ef 2:10).
               No versículo 18, Tiago antevê a resposta do leitor à sua situação hipotética: “Uma pessoa tem fé, a outra tem obras” [3]  Em outras palavras: “fé e obras são mutuamente exclusivas”. Tiago responde observando a impossibilidade de exibir fé real separada de obras; a fé genuína será discernível pelas obras que produz. Isso é crucial para entender a mensagem desta passagem. Para Tiago, a fé verdadeira se difere por seus frutos. Ao contrário da crença dos aristocratas, a mera aceitação intelectual de quem é Jesus não era uma fé salvadora. Afinal, até mesmo os demônios crêem nos fatos sobre Jesus (v. 19).
               Aqui é onde a passagem fica difícil e a aparente contradição com Paulo vem à tona. Tiago começa a provar que a fé sem obras correspondentes é trivial e de nenhum valor. Conforme foi mencionado acima, ele ilustra este ponto de vista ao olhar para a fé de Abraão. Ele afirma que Abraão foi justificado pelas obras quando ele “ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque” (Tiago 2:21 ESV).  Naturalmente ele está se referindo a Gênesis 22 quando Abraão obedientemente se preparou para sacrificar Isaque conforme a ordem do Senhor. Para Tiago, de acordo com os versículos 22-23, a fé que Abraão professou em Gênesis 15:6 foi concretizada em Gênesis 22.
               Este ponto é crucial para um entendimento adequado do texto. A prova clara de que a profissão em Gênesis 15:6 era o exercício da fé genuína é a obediência mostrada em Gênesis 22. Como cristãos, gostamos de falar que Deus conhece nossos corações e nossa disposição em fazer alguma coisa para ele. Isso é típico da nossa racionalização da passagem do Jovem Rico em Lucas 8:18-30.  Entretanto, este não é o padrão das Escrituras. Deus não se satisfaz em olhar para dentro de nossos corações para ver se estamos dispostos. Ele nos coloca à prova. Por que Abraão estava disposto a sacrificar Isaque? Porque ele tinha uma fé real. O mesmo é verdade para Daniel e a Cova dos Leões, os três jovens e a fornalha, Davi com Golias, etc. Por toda a Bíblia, a fé é justificada ou provada por ações.
               Tiago continua nesta colocação com a estória de Raabe. Sua fé genuína foi tornada manifesta quando ela protegeu os emissários (v. 25). Em todos esses casos, a fé salvadora é uma fé viva que produz boas obras. Para Tiago, assim como Paulo, a fé verdadeira é acompanhada por uma vida de fazer as obras que Jesus tem preparado para nós (Ef 2:10).  Para ambos, não há lugar na cruz para uma religiosidade da boca para fora, baseada apenas na intelectualidade e que é destituída da morte do seu eu, do carregar a cruz e de obediência.

               [1] Stott, John. The Story of the New Testament. [A História do Novo Testamento] (Grand Rapids, Michigan, EUA: Baker Books, 1994), 117.
               [2] Ibid, 121.
               [3] Frank E. Gæbelein, ed., The Expositor’s Bible Commentary [Comentário Bíblico do Expositor], vol. 12 (Grand Rapids, Michigan, EUA: Zondervan, 1976), 183.

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