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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os Eleitos de Deus

            Paulo começa Romanos 9 compartilhando sua tristeza quanto à condição perdida de seus companheiros israelitas (versículo 1-5). Israel fora adotada como o povo especial de Deus e, como tal, tinha recebido as alianças, a lei, as promessas e os patriarcas. Seria de sua raça que o Messias viria. Apesar de tudo isso. eles rejeitaram a Deus. Como Paulo escreveu depois, eles tropeçaram em Cristo (versículo 33). Como poderia o povo de Deus que tinha recebido tanto deixar de receber a salvação dada por Cristo? Teria Deus deixado de fazer o que prometeu?

            Paulo lida com isso na próxima seção (versículo 6-13). A palavra de Deus não tinha falhado porque nem todo o Israel étnico era o Israel de Deus (versículo 6). Ele primeiro ilustra isso na vida de Abraão (versículo 6-9). O Senhor fez uma aliança com Abraão prometendo que faria dele uma grande nação e o abençoaria de modo que ele seria uma bênção. Isso inclui abençoar toda a terra através do Messias que viria (Gn 12:2-3). Abraão deixa de confiar em Deus e tem Ismael com Hagar, escrava de sua mulher. Entretanto, Deus diz a Abraão que é através de Isaque que a promessa será cumprida (Gn 12:12, Romanos 9:7).

Ao mesmo tempo em que a promessa foi feita para Abraão e seus descendentes, nem todos eles estão incluídos. Os filhos da carne, os descendentes de Ismael, não são filhos de Deus. Os filhos da promessa é que são a verdadeira descendência. A questão de Paulo é que simplesmente ter Abraão como ancestral, não qualificou os judeus a pertencerem ao Israel de Deus. As pessoas que, como Abraão, exercem fé são as que são considerados  justos (Romanos 4:3-5).

Paulo, mais adiante, explica isso através da vida de Jacó e Esaú (v. 10-13). Rebeca concebeu gêmeos e antes de eles nascerem foi dito a ela e a Isaque que o mais velho (Esaú) serviria o mais novo (Jacó). Isso era totalmente contrário a sua cultura, e teria sido muito chocante. Paulo diz que Deus fez isso a fim de que seu propósito de eleição pudesse continuar. Antes que um dos meninos pudesse fazer algo para merecer o favor de Deus, Deus escolheu abençoar Jacó.

Novamente ele está ilustrando que nem todos os descendentes de Abraão são do verdadeiro Israel. Ele torna isso claro ao citar Malaquias 1:2-3 “.. amei a Jacó e odiei Esaú.” Alguns estudiosos tentam suavizar essa afirmação e dizer que isso simplesmente significa que Deus “amou Esaú menos” que Jacó. Primeiro, nós podemos, de maneira muito simples, notar que a afirmação que Ele odiou Esaú e não o amou menos. Segundo, Malaquias 1:2-5 torna este ponto de vista impossível. Deus diz que Ele tinha destruído completamente os descendentes de Esaú e eles seriam chamados ‘o povo contra quem o SENHOR está irado para sempre.’ Então, desde o ventre, antes do nascimento, Deus determinou que amaria Jacó e odiaria Esaú. Isso não era baseado em quaisquer obras, incluindo fé, mas simplesmente no chamado, ou escolha de Deus.

            Paulo está afirmando que o Senhor manteve sua promessa porque o remanescente, o verdadeiro Israel, está sendo redimido enquanto o restante do Israel étnico continua em rejeição. Ele anteviu o choque israelita, e então pergunta “Acaso Deus é injusto?” (versículo 14) e e continua a tratar diretamente esta questão (versículo 14-18). Primeiro, ele cita Êxodo 33:19 para resolver essa preocupação. Nessa passagem, Moisés foi mandado liderar o povo para fora do Sinai, mas o Senhor diz que não vai com eles. Isso porque eles são obstinados e se Deus for com eles, Ele os destruirá (Ex 33.3). Moisés intercede em nome deles e Deus o diz “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão” (versículo 15). Levando em conta essa passagem, Paulo afirma que a demonstração de misericórdia de Deus não tem nada a ver com vontade humana ou ações , mas simplesmente com a escolha de Deus em mostrar misericórdia. 

Além disso, Paulo aponta o Faraó em Êxodo 9. Através de Moisés o Senhor o fala sobre a vinda da sétima praga. O Senhor diz que já poderia ter destruído os Egípcios (Ex 9:15) e liberto os israelitas. Em vez disso, ele endureceu o coração do Faraó de modo que Ele pudesse  levantá-lo para demonstrar Seu poder e que Seu nome seria proclamado (Ex 9:16, Rm 9:17). Outra vez, Paulo diz que é Deus que tem misericórdia por quem Ele quer e endurece quem Ele quer.

Esperando objeções Paulo pergunta “Então, por que Deus ainda nos culpa?” Certamente, nós reagimos da mesma forma. Como poderia Deus ser justo em encontrar erros quando Ele endurece alguns para julgamento e exerce misericórdia para com outros, baseado unicamente em seu chamado? A reação de Paulo é muito significativa (versículo 19-29). Ele não oferece explicação para essa aparente injustiça ou contradição. Ao invés disso ele pergunta: quem somos nós para questionar a Deus? Assim como o barro não tem o direito de questionar o oleiro que o dá forma conforme sua vontade, nós não temos direito de questionar aquele que nos criou (v. 20-21).

          Essa é a prerrogativa de Deus em criar vasos como lhe aprouver, alguns para mostrar sua ira e outros para mostrar sua misericórdia (v. 22-23). Surpreendemente para os judeus, os gentios se encontram entre aqueles vasos chamados para mostrar a misericórdia de Deus (v. 24). Isso é mostrado através de várias passagens do Velho Testamento. A primeira passagem é Oséias 2:23. Em seu contexto, ela se refere a Israel, mas aqui o Espírito Santo inspira Paulo a aplicá-la aos gentios. A segunda passagem é de Isaías. O profeta fala de como o Senhor preservou um remanescente (Rm 9:27, Is 10:22,23) ao contrário do povo que Deus tinha destruído como Sodoma e Gomorra (Rm 9:29, Is 1:9). Assim, a palavra de Deus não falhou  porque Ele tinha preservou o restante do Israel étnico e acrescentou os gentios eleitos. Esses dois compõem o verdadeiro Israel de Deus.

            Paulo encerra o capítulo de forma bastante inesperada. Ele não usa a soberania de Deus e Sua eleição para isentar os israelitas da responsabilidade. Ele diz que os gentios obtiveram justiça por fé, mas Israel deixou de obtê-la porque seguiu a lei da justificação por obras (v. 30-32). Eles tropeçaram em Cristo. Eles rejeitaram a justiça de Cristo que foi disponibilizada para eles através da fé. Eles escolheram permanecer sob a lei e desejaram, portanto, ser julgados pela lei. É apenas em Cristo que podemos receber a justiça da lei porque apenas ele a cumpriu. De alguma forma a eleição soberana de Deus não diminui a responsabilidade do homem. 

Esse é um capítulo difícil e  frequentemente não gostamos dele porque o olhamos com a  perspectiva errada. Assim como Paulo anteviu, nossa reação é dizer que se isso é verdade, então Deus é injusto e sem amor. Isso vai contra Sua natureza. Entretanto, essa reação revela um enorme descuido de nossa parte. Nós devemos lembrar que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Rm 3:23), e que ninguém é justo (Rm 3:10). Portanto, todos merecem a ira e Deus não é obrigado a salvar ninguém. Deus não faz injustiça quando permite pessoas más perseverarem em sua rejeição ou mesmo quando, em julgamento, Ele endurece ainda mais seus corações.

Entretanto, Deus é extremamente misericordioso quando ele escolhe intervir e chamar alguns daqueles injustos para a fé salvadora. Reconhecidamente, essas são verdades difíceis, mas nós não somos chamados para justificar Deus com elas. Nós somos chamados para humildemente nos submetermos a elas e nos alegrarmos com a misericórdia imerecida que recebemos. Além disso, longe de esfriar nosso entusiasmo evangelístico, essas verdades deveriam nos guiar a reagir como Paulo em Rm 9:2-3 e 10:1.

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