Páginas

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Adoração que Agrada a Deus


       Há muito tempo tenho estado intrigado com Isaías 58. É uma passagem muito interessante porque parece ver a adoração a Deus de uma forma muito diferente da que é considerada a norma pela Igreja ocidental. No primeiro verso, vemos Deus dar uma ordem ao profeta "grite alto, não se contenha" (NVI) ao declarar os pecados das pessoas. Então, o Senhor continua descrevendo-as como pessoas que "dia a dia me procuram" e que "parecem desejosos de conhecer os meus caminhos". Pedem "decisões justas e parecem desejosos de que Deus se aproxime deles". Ao colocar isso em nossos termos, você poderia dizer que essas são pessoas que têm um período de devocional diário: lêem a palavra e oram. Desejam adorar e frequentar a igreja regularmente. Essas coisas são consideradas sinônimos de alguém que tem suas ações comuns às de um Cristão; alguém que fielmente ama ao Senhor.

       Mas nesse caso, esses aparentemente fiéis seguidores do Senhor estão se queixando porque Ele está os ignorando e também suas práticas religiosas, especificamente o jejum. Por que Deus está ignorando essas pessoas que o buscam e desejam conhecê-lo? Como o profeta diz em Is 29:13 e como Jesus descreve os fariseus em Mt 15:8-9 "Esse povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim, Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens". Ao mesmo tempo em que eram fiéis ao praticar aspectos espirituais de sua fé, eles estavam negligenciando, ou até mesmo ignorando, o resultado prático da palavra de Deus em suas vidas.

       Ao mesmo tempo em que o devocional diário, a oração e até mesmo o jejum são essenciais para a vida Cristã, quando são feitos em um vácuo e não penetram em nossas vidas diárias, eles são desagradáveis para Deus. De acordo com essa passagem, isso é pecado e resulta no julgamento de Deus. Jesus resumiu toda a lei e profetas nisso "Ame o Senhor, o seu Deus, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento... E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo" Mateus 22:37-40. Esse é exatamente o problema dessas pessoas, e suas práticas religiosas parciais revelam que elas não amavam os outros sacrificialmente e, portanto, não amavam a Deus.

       As pessoas jejuavam para buscar seu próprio prazer e além de negligenciar os realmente necessitados, elas os oprimiam ainda mais (v.3). Elas declaravam um dia de jejum a fim de ganhar o favor e as bênçãos de Deus, mas não permitiam que seus empregados participassem. Ao invés disso, eles eram forçados a reparar a falta de produtividade resultante do jejum dos mestres. Mais do que isso, elas se humilhavam visivelmente, fato contra o qual Jesus advertiu em Mateus 6:16-18 "não mostrem uma aparência triste como a dos hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando". Isso não é normativo de um coração transformado pelo evangelho da graça, mas ilustra a religião legalista sendo praticada para de algum modo agradar a Deus e ganhar o louvor dos homens!

       Em reposta à pergunta das pessoas de por que o Senhor não havia respondido aos seus jejuns, o Senhor explica o tipo de adoração a qual Ele vai responder. Nos versículos 6-14, Ele faz diversas afirmações do tipo “se/então” que deixam muito claro o que move o seu coração. No versículo 6, Deus diz que responde à adoração que irá "soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo". Isso se refere ao povo de Deus trabalhando ativamente para ver aqueles que são marginalizados ou oprimidos sendo libertados das amarras e tratados de forma justa.

       No versículo 7, Ele continua a dizer que a adoração que o agrada é "partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado" e cuidar do seu próximo, vestindo o desprovido. Ele também diz "não te escondas da tua própria carne". Quando as pessoas faziam vistas grossas para seus companheiros israelitas que eram oprimidos, famintos, desabrigados e nus, elas estavam se escondendo de sua própria carne, ou de seu próprio povo. Elas não queriam lidar com essas pessoas, então os evitavam. Será que quando vemos os oprimidos, famintos, desabrigados e desprovidos que são membros do corpo global de Cristo e os ignoramos, fazemos vistas grossas, ou racionalizamos como se suas más condições fossem sua própria culpa, não estamos nós fazendo a mesma coisa?

       Então, Deus está procurando por adoradores que tenham seus olhos e corações abertos aos feridos. Pessoas que vão libertar os oprimidos, alimentar os famintos, dar abrigo aos desabrigados e roupa para os desprovidos. Será que esses aspectos da nossa fé são coisas que consideramos tão importantes quanto o devocional diário ou ir à igreja? Romanos 12:1 diz: "se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto espiritual de vocês". Esses atos de amor sacrificial pelos outros são, de fato, atos de adoração!

      Após ter mostrado às pessoas o tipo de adoração que Ele deseja, o Senhor passa a lhes dar uma gloriosa promessa. Se adorarem a Deus dessa forma, então Deus as abençoará abundantemente. Ele promete que sua luz romperá como a alvorada. Nós somos a luz do mundo e quando nós amarmos os outros sacrificialmente, Deus fará que essa luz brilhe de tal maneira que o mundo não vai apenas vê-la, vai responder. Exatamente como foi com a igreja primitiva em Atos 2 e 4 quando eles adoravam a Deus dessa forma "grandiosa graça estava sobre todos eles" (Atos 4:33) e eles tinham "a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos" (Atos 2:47).

       Cuidar amorosa e sacrificialmente dos feridos não resulta apenas na vinda do pobre e necessitado a Cristo, mas dos nossos vizinhos de classe média também. Quando nosso vizinho - o empresário íntegro que, apesar de não ser cristão, é honesto, fiel a sua mulher e que ama sua família - olha para nós, frequentemente ele não vê diferença significativa entre nossa vida e a dele, exceto o fato de nós irmos à igreja. Ele simplesmente acredita que nós precisamos ir à igreja, mas ele é capaz de viver como nós, mas sem religião. Por outro lado, quando esse mesmo vizinho nos vê renunciando às coisas desse mundo, sacrificialmente cuidando do ferido e investindo generosamente no reino de Deus, ele vai perguntar por quê. Quando nós explicarmos que somos motivados a viver desse modo por causa do evangelho da graça de Deus, nossa "luz irromperá como a alvorada" (v. 8) e nossa "retidão irá adiante de nós", Deus vai se mover e nossos vizinhos, amigos e famílias serão salvos.

       Além disso, o Senhor diz que se seu povo o adorar dessa forma, Ele vai responder ao seu clamor. Deus não reponde àqueles que praticam a religião morta, mas quando aqueles cujos corações foram transformados pela graça sacrificialmente amam aos outros, Ele é movido a respondê-los. Ele não fecha mais seus ouvidos ao seu pranto, mas responde suas orações. Suas orações não têm sido respondidas? Seria isso é porque você está praticando uma religião centrada em si mesma, buscando seu próprio prazer?

        Em seguida, o Senhor reitera esse ensinamento. Nos versículos 9b-10, Ele diz que se o povo vier a "eliminar do seu meio o jugo opressor" que é o trabalho de remover opressão e parar de apontar "o dedo acusador e [eliminar] a falsidade do falar" ou de ser julgador e "com renúncia própria você beneficiar os famintos e satisfazer o anseio dos aflitos", então Ele vai, de fato, abençoar. Derramar-nos em nome dos famintos significa negarmos a nós mesmos e fielmente amá-los como amamos a nós mesmos.

       Outra vez, o Senhor promete que se nós O adorarmos dessa forma, Ele vai nos guiar e satisfazer nossas necessidades e desejos. Ele vai nos fortalecer e nós seremos como uma fonte de água refrescante para o mundo perdido a nossa volta. Nós seremos o "reparador de muros, restaurador de ruas e moradias" (v. 12). Isso quer dizer que seremos agentes de transformação e restauração para o mundo caído.

       Finalmente, na última série de afirmações do tipo “se/então”, o Senhor promete que se seu povo honrar o Sábado judaico não procurando auto-satisfação, então Ele vai nos fazer sentir prazer nEle. Nossa adoração verdadeira, como foi descrita nessa passagem, resultará em satisfação e descanso no Senhor. Essa transição para o Sábado é interessante porque até esse ponto, pode-se ter a impressão de que Deus está apenas interessado em ministério de misericórdia; porém, aqui Ele nos  ordena especificamente honrar o Sábado. Nós vemos um equilíbrio aqui, onde Deus mostra a plenitude do que significa adorá-lO. Assim como é errado focar no físico (alimentar o faminto, vestir o despido, etc.) e negligenciar o espiritual (frequentar a igreja, devocional diário, oração), é igualmente errado focar no espiritual em detrimento do físico.

       O foco em um e não no outro indica uma deficiência em nossa fé cristã. Isso é demonstrado no ministério de Jesus. Em Mateus 23:23, Jesus aponta que os fariseus eram extremamente fiéis em sua prática religiosa do dízimo, ao ponto de dar 10% até mesmo de suas especiarias. No entanto, eles negligenciaram "os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade". Seria como se você estivesse tão empenhado em dar o dízimo que, quando você achasse um real na rua, seria fiel ao dar dez centavos, no entanto, quando você passasse por um homem faminto se recusaria a dar a ele os outros 90 centavos. Para que serve o seu compromisso com o dízimo se você não tiver misericórdia dos famintos?

       A solução dEle não é parar de dar o dízimo e começar a ajudar os pobres, mas fazer o primeiro sem negligenciar o último. Em outras palavras, verdadeiros seguidores de Cristo adorariam a Deus com palavras e com ações. Eles despenderiam tempo com a palavra de Deus, lendo, orando e jejuando. Eles se reuniriam para adorar e aprender com a pregação da palavra de Deus. Entretanto, essas coisas não podem ser feitas em um vácuo. A palavra de Deus penetraria em seus corações e seria obedientemente aplicada em suas vidas. Isso resultaria em ação justa, não em complacência passiva.

       Como podemos viver dessa forma quando nossos corações e nossa cultura são pecaminosamente egocêntricos? A resposta para nós é a mesma que foi para Israel. No capítulo 59, Deus diz que "O braço do Senhor não está tão encolhido que não possa salvar" (v. 1) e Ele promete ao povo que o redentor virá a Sião (v. 20). Esse redentor é Jesus Cristo e Ele veio para nos libertar da escravidão do egoísmo e também da complacência pecaminosa ao negar a Si mesmo e entregar Sua vida por nós enquanto éramos pecadores egoístas. Ele veio para nos dar um novo coração que ama inteiramente a Deus e assim ama aos outros sacrificialmente. Ele nos salvou para que pudéssemos adorar a Deus inteiramente ao cumprir as boas obras que ele preparou para nós (Ef 2:10).

Nenhum comentário:

Postar um comentário